• 26 de agosto de 2026
  • JORNAL DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO
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Do campo ao prato: agricultura de baixo carbono ganha força na agenda climática brasileira

Por Amanda Carolina Tostes


A construção de sistemas alimentares mais sustentáveis vem ganhando espaço no debate climático brasileiro. Mais do que reduzir as emissões geradas no campo, o desafio envolve transformar a maneira como os alimentos são produzidos, distribuídos e consumidos, fortalecendo a agricultura familiar, a agroecologia, a sociobiodiversidade e práticas de baixo carbono. No noroeste de Minas Gerais, uma experiência demonstra que esse caminho é possível. Na Copabase,  Cooperativa da Agricultura Familiar Sustentável com Base na Economia Solidária –, frutas produzidas por cerca de 160 famílias passam por uma agroindústria própria e são transformadas em polpas congeladas. Os produtos chegam a escolas públicas, prefeituras e outras instituições, aproximando produtores e consumidores e agregando valor à produção local. A experiência faz parte de uma discussão mais ampla apresentada pelo Observatório do Clima (OC), que defende mudanças estruturais nas políticas relacionadas aos sistemas alimentares e à agropecuária de baixo carbono.


Produção com menor impacto ambiental


Entre as propostas apresentadas pelo OC está a recuperação de 22,5 milhões de hectares de solos degradados, além da expansão de 18 milhões de hectares de sistemas de Integração-Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), da implantação de 1 milhão de hectares de Sistemas Agroflorestais (SAF) e da ampliação das florestas plantadas em 5 milhões de hectares. Também estão entre as medidas a expansão do plantio direto em 12,5 milhões de hectares e a adoção de técnicas capazes de reduzir a necessidade de fertilizantes nitrogenados em outros 19 milhões de hectares. O objetivo é contribuir para que o setor agropecuário reduza suas emissões líquidas até 2035 e para que o Brasil avance no cumprimento de seus compromissos climáticos internacionais. Outro ponto considerado fundamental é o direcionamento do financiamento rural. A proposta defende que recursos públicos e privados sejam cada vez mais associados a práticas sustentáveis, evitando o financiamento de propriedades relacionadas ao desmatamento ilegal e a violações de direitos humanos.


O desafio também está no consumo


A transformação, entretanto, não termina na propriedade rural. O caminho entre a produção e o prato também precisa fazer parte das políticas climáticas. Para Vanessa Garbini, vice-presidente de Relações Institucionais e Governamentais da Mercy For Animals, reduzir as emissões da produção agropecuária é importante, mas insuficiente quando não se considera o impacto associado ao consumo de alimentos. A especialista defende dietas mais diversificadas, com maior presença de vegetais e menor dependência de proteínas de origem animal, paralelamente ao fortalecimento da agricultura familiar, da agroecologia, da sociobiodiversidade e dos sistemas agroflorestais. Essa mudança também passa pelo combate à chamada “tríplice monotonia”: a baixa diversidade nas lavouras, a concentração das cadeias produtivas e uma alimentação pouco diversificada, muitas vezes marcada pela presença de produtos ultraprocessados.


Agricultura familiar como parte da solução


A experiência da Copabase mostra como políticas públicas e organização dos produtores podem transformar a realidade local. As polpas produzidas pela cooperativa aproveitam a diversidade e a sazonalidade das frutas, aumentam a durabilidade dos alimentos e agregam valor à produção das famílias. As vendas para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), iniciadas em 2009, chegaram a representar até 80% do faturamento da entidade. Em 2017, um contrato com a Prefeitura de Betim ampliou a distribuição para 198 pontos, entre escolas e creches. Com o aumento da demanda, a produção passou de aproximadamente duas toneladas por ano para duas toneladas por mês. Além de garantir mercado para os agricultores, a iniciativa aproxima a produção local das escolas e contribui para uma alimentação mais diversificada. Para Dionete Figueiredo, gerente da Copabase, o trabalho da cooperativa demonstra que a agricultura familiar pode funcionar quando existe planejamento, gestão e acesso a mercados. A intenção, segundo ela, é ampliar as vendas para instituições públicas e outros mercados, reduzindo intermediários e mantendo uma parcela maior da renda no campo.


Políticas públicas podem acelerar a transição


A agricultura brasileira possui um papel estratégico na construção de uma economia de baixo carbono. Por isso, a transição não depende apenas da iniciativa individual dos produtores. É necessário criar condições para que práticas sustentáveis sejam economicamente viáveis e tenham acesso a crédito, tecnologia, assistência técnica e mercados. Programas de compras públicas, como o PNAE, podem exercer papel importante nesse processo ao conectar agricultores familiares, escolas e consumidores. Ao mesmo tempo, investimentos em recuperação de solos, sistemas integrados, agroflorestas e tecnologias de baixa emissão podem contribuir para reduzir a pressão sobre os recursos naturais.


A agenda climática, portanto, precisa olhar para toda a cadeia: do campo ao prato.


A experiência da Copabase reforça uma mensagem importante para o Brasil: sustentabilidade, geração de renda, segurança alimentar e proteção ambiental não precisam caminhar separadamente. Quando políticas públicas, produtores e consumidores participam de uma mesma estratégia, a alimentação pode deixar de ser apenas parte do problema climático e passar a ser também parte da solução. Mais diversidade no campo, mais sustentabilidade na produção e escolhas alimentares conscientes podem ajudar a construir um sistema alimentar mais resiliente, justo e preparado para os desafios das mudanças climáticas.

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