• 21 de outubro de 2026
  • JORNAL DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO
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Mundo caminha para aquecimento global de até 2,8 °C, ação climática precisa ser intensificada, alertas ONU

O mundo continua caminhando para um cenário preocupante de aquecimento global, com a possibilidade de a temperatura média do planeta atingir 2,8 °C acima dos níveis pré-industriais até o fim deste século, caso as políticas climáticas atuais sejam mantidas. O alerta reforça a urgência de ampliar os esforços internacionais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e evitar consequências ainda mais graves para o meio ambiente e para a humanidade.


A avaliação, atribuída ao Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), destaca que os compromissos assumidos pelos países ainda estão distantes do necessário para limitar o aquecimento global a 1,5 °C, objetivo central do Acordo de Paris.


O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, reforça que a possibilidade de ultrapassar esse limite não pode ser interpretada como motivo para abandonar a luta contra as mudanças climáticas. Pelo contrário, a situação exige ações mais rápidas, investimentos consistentes e uma mobilização global capaz de reduzir a intensidade e a duração desse cenário.


Políticas climáticas ainda são insuficientes


De acordo com os dados apresentados no texto-base, mesmo que os países cumpram suas metas climáticas nacionais e os compromissos de neutralidade de emissões, o aquecimento global poderá chegar a aproximadamente 2,1 °C até 2100. A diferença entre esse cenário e o limite de 1,5 °C evidencia a dimensão do desafio. Cada fração adicional de grau aumenta os riscos associados a eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas prolongadas, chuvas intensas, inundações e incêndios florestais. Os impactos também podem comprometer ecossistemas fundamentais para o equilíbrio climático, incluindo as geleiras, os mantos de gelo, os oceanos e os solos, que armazenam grandes quantidades de carbono.


Além dos danos ambientais, o avanço do aquecimento global representa uma ameaça à segurança alimentar, à disponibilidade de água, à saúde pública, à economia e à qualidade de vida das populações, sobretudo das comunidades mais vulneráveis. A urgência, portanto, não está apenas em evitar o aumento da temperatura, mas também em preparar as sociedades para enfrentar consequências climáticas que já se manifestam em diferentes regiões do planeta.


Brasil tem metas importantes para reduzir emissões


O Brasil ocupa uma posição estratégica no enfrentamento da crise climática, principalmente por sua biodiversidade, pela importância da Amazônia e pelo potencial de expansão das fontes renováveis de energia. Conforme os dados apresentados no material de referência, o país prevê reduzir suas emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035, tomando como referência os níveis de 2005. Entre as iniciativas destacadas estão as ações relacionadas ao programa Nova Indústria Brasil, que busca estimular a modernização industrial, ampliar o uso de biocombustíveis e veículos elétricos e incentivar o aproveitamento sustentável da biodiversidade. Outro ponto fundamental é o Plano de Ação para a Prevenção e o Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, que estabelece medidas para combater a perda de vegetação nativa e contribuir para a eliminação do desmatamento ilegal até 2030. O cumprimento dessas metas depende de fiscalização ambiental, investimentos, planejamento de longo prazo e integração entre governos, empresas, instituições científicas e sociedade civil. A proteção das florestas brasileiras tem relevância internacional, pois os ecossistemas florestais desempenham funções essenciais na conservação da biodiversidade, na regulação do ciclo da água e no armazenamento de carbono.


Ainda é possível limitar os impactos do aquecimento


Apesar do cenário preocupante, a redução das emissões continua sendo uma das principais ferramentas para diminuir os riscos climáticos futuros. O relatório descrito no material de referência considera um cenário no qual a temperatura global ultrapassaria temporariamente o limite de 1,5 °C, atingiria um pico estimado entre 1,7 °C e 1,8 °C em meados do século e, posteriormente, retornaria a 1,5 °C ou menos até 2100. Essa possibilidade, entretanto, exigiria cortes expressivos nas emissões globais, muito superiores aos resultados previstos a partir dos compromissos climáticos atualmente apresentados pelos países. Para alcançar uma trajetória de menor aquecimento, será necessário acelerar a substituição de combustíveis fósseis por fontes de energia de baixa emissão, ampliar a eficiência energética, transformar os sistemas de transporte e produção e fortalecer a conservação dos ecossistemas naturais. Também será indispensável desenvolver políticas públicas capazes de tornar as tecnologias limpas mais acessíveis e estimular mudanças estruturais nos modelos de produção e consumo.


Energias renováveis são parte da solução


A expansão das energias renováveis representa uma oportunidade concreta para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e diminuir as emissões associadas à geração de eletricidade. A energia solar e a eólica, combinadas com sistemas de armazenamento, modernização das redes elétricas e medidas de eficiência energética, podem contribuir significativamente para a transformação da matriz energética mundial. O avanço dessas tecnologias também pode gerar empregos, atrair investimentos e estimular novas atividades econômicas, desde que sua expansão seja acompanhada de planejamento, responsabilidade socioambiental e políticas de inclusão. O PNUMA destaca a importância de fortalecer instrumentos econômicos e regulatórios que incentivem a redução das emissões. Entre eles estão a precificação do carbono, os padrões de eficiência, as políticas de eletrificação e os incentivos à adoção de tecnologias menos poluentes. Entretanto, a transição energética precisa ocorrer em escala global. O avanço de alguns países e setores não será suficiente se outras economias continuarem ampliando suas emissões sem medidas equivalentes de redução.


Responsabilidade climática precisa ser compartilhada


Um dos desafios apontados é a concentração dos resultados positivos das políticas climáticas em determinados países e setores econômicos. Para ampliar esses avanços, as estratégias de redução de emissões precisam alcançar toda a economia, considerando as diferenças entre as nações, suas condições financeiras, suas necessidades de desenvolvimento e suas capacidades tecnológicas. Os países com maior capacidade econômica têm um papel importante na mobilização de recursos, na transferência de tecnologias e no apoio às nações mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, governos nacionais e locais, empresas, instituições financeiras e cidadãos podem contribuir para acelerar a transformação necessária.A ação climática deve envolver desde grandes decisões sobre energia, indústria e uso da terra até iniciativas de eficiência, redução do desperdício e consumo consciente. Embora as responsabilidades sejam diferentes, a construção de uma resposta efetiva depende de ações coordenadas e permanentes.


Ultrapassar 1,5 °C não significa desistir


O limite de 1,5 °C tornou-se uma referência fundamental nas negociações climáticas internacionais porque representa uma tentativa de restringir os impactos mais graves do aquecimento global. Sua possível ultrapassagem, ainda que temporária, aumenta os riscos para os sistemas naturais e humanos. Isso não significa, porém, que todas as consequências sejam inevitáveis ou que a redução das emissões perca sua importância. Quanto menores forem o aquecimento máximo e o tempo em que as temperaturas permanecerem elevadas, maiores serão as possibilidades de limitar danos adicionais. A mensagem central é clara: adiar as decisões climáticas torna o desafio mais difícil e potencialmente mais caro. Cada ano de emissões elevadas amplia a necessidade de cortes futuros e reduz a margem de segurança para ecossistemas e populações. A crise climática exige compromisso político, responsabilidade empresarial, financiamento adequado e participação social. Mais do que estabelecer metas, é necessário transformá-las em resultados concretos, mensuráveis e duradouros. O futuro climático do planeta ainda depende das escolhas feitas no presente. Intensificar a redução das emissões, proteger as florestas, investir em energias limpas e fortalecer a cooperação internacional são medidas essenciais para reduzir os riscos e preservar as condições de vida das próximas gerações.

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