• 21 de julho de 2026
  • JORNAL DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO
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Unidades de conservação estocam 33 anos de emissões nacionais

Levantamento revela que unidades de conservação brasileiras armazenam 19,4 gigatoneladas de carbono; “Congresso pode se tornar maior fonte de emissões”, diz especialista
Levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) feito a pedido do Observatório do Clima mostra que, no Brasil, essas áreas protegidas terrestres, em todas as categorias, armazenam 19,4 gigatoneladas de carbono. Convertido para CO2, esse estoque equivale a 33 anos de emissões brasileiras de gases de efeito estufa no ritmo atual – 2,145 GtCO2e em 2024, o último dado disponível. Os recentes ataques do Congresso às unidades de conservação, no entanto, colocam esse estoque em risco.


“Os projetos em tramitação ameaçam um patrimônio ambiental de todos os brasileiros e o equilíbrio climático mundial”, diz Paulo Moutinho, pesquisador sênior do Ipam, em referência às propostas do Legislativo que visam à redução, reclassificação ou extinção de unidades de conservação no Brasil. “Os parlamentares que apoiam esses projetos podem transformar o Congresso na principal fonte de emissões de gases de efeito estufa do país”, reforça.


A análise de Moutinho levou em conta o recente rebaixamento de 40% da área da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, para Área de Proteção Ambiental, e outras propostas no Congresso que encolhem, eliminam ou mudam de categoria áreas como a APA da Baleia Franca (SC), a Estação Ecológica de Taiamã (MT) e o Parque Nacional de Albardão (RS), para citar apenas algumas.
A recém-rebaixada Flona do Jamanxim, por exemplo, já está entre as dez unidades de conservação que mais emitiram carbono, segundo a análise do Ipam. No ano de sua criação, em 2006, o estoque de carbono da unidade era de cerca de 184 milhões de toneladas. Em 2025, esse número caiu para cerca de 153 milhões de toneladas, uma perda relativa de 16,54%.


Esta redução mostra que o desmatamento continua ocorrendo na unidade, mesmo após a definição de seus limites, há 20 anos. De fato, uma nota técnica de organizações da rede do OC apontou que 86,6 mil hectares foram desmatados e ocupados ilegalmente após a criação da Flona, dos quais mais de 36 mil foram ao chão entre 2018 e 2025.


Os números colocam a unidade na terceira posição entre as UCs federais que mais perderam seus estoques de carbono. No ranking geral de perdas entre todas as áreas protegidas do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), Jamanxim fica na 10ª posição.


Estudos publicados por Moutinho e outros cientistas já mostravam que as principais categorias de áreas protegidas da Amazônia brasileira são escudos contra o desmatamento. Fora delas, a destruição é muito maior. “Desde a criação dessas unidades [avaliadas] até 2022, a perda de vegetação nativa dentro delas ficou em torno de 6,5%, enquanto, fora delas, foi de pelo menos 30%”, lembra ele.


O especialista do Ipam também alerta que as alterações impostas pelo Legislativo podem ter efeitos imediatos nas áreas protegidas e no clima. “Qualquer mudança que reduza a proteção resulta, no dia seguinte, em emissões decorrentes de desmatamento e de fogo, especialmente em anos de El Niño”, ressaltou.


Diante deste contexto, Moutinho lança um apelo aos candidatos às eleições deste ano e parlamentares em exercício: enfraquecer o SNUC produz efeitos que vão muito além das regiões diretamente afetadas. “Não é uma consequência apenas local ou para alguns grupos. É para o país inteiro e também para além das fronteiras brasileiras”, diz.


“Estamos no meio de uma emergência climática. O que está em discussão não é simplesmente a redução de uma área protegida. Os parlamentares precisam olhar não apenas para as demandas políticas que recebem, mas também para aquilo que a ciência vem alertando”, complementa.


 

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